Textos - O Natal e o Luto


O NATAL E O LUTO
Joan Carles Ambrojo / Tradução: Lana Lim


Muita gente odeia o Natal porque é em ceias e festas que se faz mais presente a ausência dos entes queridos. Há uma dissonância entre a tristeza interior e os estímulos externos, que ditam que você deve estar alegre. Mas sobreviver a essas datas é possível

O luto é a dor que vivemos diante da perda de um ente querido, ou, em um nível possivelmente menor, por uma demissão no trabalho, uma transferência ou um divórcio. Em épocas como o Natal, com suas reuniões de família, se avivam as lembranças de forma aguda e é normal sentir uma enxurrada de emoções e sentimentos diante dessa cadeira que fica vazia em casa. Buscar apoio entre parentes e amigos ou terapeutas, estabelecer novos rituais e permitir que aflorem as emoções são algumas das recomendações dadas pelos especialistas para sobreviver a certas datas, como as natalinas, que tanta gente detesta.

Choro, raiva, aflição, desespero, solidão, culpa, negação ou até alívio são sentimentos normais e saudáveis que aparecem quando uma pessoa nos deixa para sempre. Fazem parte do processo curativo das feridas emocionais. “Já não comemoro o Natal há cinco anos. Vamos a um lugar bem deserto, onde ninguém nos conhece, onde não há luzes, nem lojas, nem presentes. Ali passamos esses dias, sozinhos, meu marido e eu, com nossas recordações. Não conseguimos ver como os outros estão felizes nestes dias e as celebrações familiares já não são assim, elas viraram refeições normais”. Flor ainda vive a dor pela morte de Helena, sua única filha, que morreu quando adolescente em um acidente de carro por culpa de um motorista bêbado. “Estamos mais em contato com a natureza. O sol, o ar, a chuva, fazendo caminhadas, lendo, escrevendo”.

Qualquer luto é uma reação natural. Trata-se de uma forma de adaptação que segue um processo de desapego, de despedida de alguém que se foi. Cada pessoa expressa a dor à sua maneira. “A intensidade do luto não só depende da natureza do objeto, como também do valor que lhe atribuímos”, diz José Maria Jiménez Ruiz, especialista em terapia familiar em psiquiatria. “Entre outras coisas, porque ocorre uma dissonância entre a experiência que se está vivendo por dentro e todos os estímulos externos que de alguma maneira dizem que você deve estar alegre”, acrescenta.

Marta perdeu uma de suas cinco irmãs há algumas semanas. “Não me conformo com a ideia de que ela se foi. Eu a vejo rindo, éramos muito unidas”, diz. Não esperavam por isso, e sua morte, aos 59 anos, depois de ter se recuperado de um câncer, foi um golpe duro para todos, sobretudo para o marido e os filhos, já casados, que agora acompanham seu pai dia e noite. Marta, assim como o resto de sua família, reconhece que precisa superar isso. Há dez anos, a morte de sua mãe já foi muito dolorosa e, desde então, a família dispersa, com alguns residindo em Miami, procura se reunir nas comemorações. Agora, seu cunhado insistiu: “Sabemos que vamos chorar mais do que rir, mas faremos isso juntos”, garante Marta.

Um processo de luto saudável pode levar um par de anos e passa por uma série de fases. Primeiro a confusão, depois raiva e negação, depressão, e finalmente a superação. Se dura mais tempo, os especialistas passam a considerá-lo um luto patológico. “Em dez anos, você pode se recordar de alguém, mas isso não transtorna o desenrolar natural de sua vida, nem o isola de suas amizades, nem deixa de desfrutar da vida”, diz Jiménez Ruiz. Em todo caso, “o luto não é uma patologia, mas sim um processo normal de adaptação”, explica Alejandro Rocamora, psiquiatra e um dos fundadores do Telefone da Esperança, que nessa época atende muitas chamadas motivadas pela solidão.

Aqueles que vivem como se indiferentes à perda utilizam um mecanismo de defesa ou negação: trata-se de um luto postergado. Quando a perda é repentina é normal sentir-se deslocado, perdido quando se trata de um filho, ao passo que quando alguém morre lentamente é possível fazer o luto antecipadamente. Uma em cada seis pessoas que perdem um familiar desenvolve uma depressão no ano seguinte, adverte um estudo de 2007 da Sociedade Espanhola de Médicos de Atenção Primária (Semergen).

Os médicos de família atendem por ano uma centena de processos de luto depressivo, segundo José Ángel Arbesú, coordenador do Grupo de Trabalho de Saúde Mental dessa sociedade. Cerca de 5% da população espanhola sofre alguma perda e cerca de 2% traduz essa perda em transtornos ou depressões “que devem ser vigiadas”, segundo Miguel Roca, membro da Sociedade Espanhola de Psiquiatria e do Semergen.

Praticamente 90% dos casos são de luto normal e os sintomas são fáceis de abordar e tratar, garante Arbesú. O problema é a vulnerabilidade do paciente se o luto chega a se tornar patológico com o tempo, diz.

Nunca se está suficientemente preparado para a morte de um ente querido. O primeiro ano é o pior, sobretudo com o primeiro Natal e outras datas relacionadas à pessoa perdida. “O melhor é normalizar a situação e tentar fazer com que o ausente continue ocupando um lugar na família, ainda que seja de outra maneira”, continua Jiménez Ruiz. Não existe uma recomendação única: há pessoas que viajam para não reviver essas situações traumáticas. “É bom ou ruim? Pode ser uma fuga ou uma adaptação a essa situação; dependerá da pessoa”, diz o terapeuta.

“Não existe uma receita única para os que perderam um ente querido porque cada perda é distinta e cada um mostra ou sente a dor de uma forma diferente”, diz Flor, mãe de Helena, que acredita ter encontrado alívio em algo que suaviza sua dor e lhe traz um bem-estar. “Aconselho às mães com as quais me relaciono que façam aquelas coisas de que gostavam antes, mas não podiam fazer. Coisas que lhes deem paz e tranquilidade, e sei de muitas que pintam, costuram, fazem trabalhos manuais, escrevem e se falam pela internet”.

Flor é dessas pessoas que buscam coisas que as ajudam a agarrar-se à vida, “porque embora durante o luto haja muitos momentos nos quais você deseja morrer, você não morre, e como dizia minha psicóloga: nem aqueles que tiram sua própria vida querem morrer”. Flor e seu marido precisaram de ajuda especializada em mortes traumáticas. Em seu caso, durante quatro anos. Foi fundamental. “Ajudou-me a reconhecer de que forma eu poderia me agarrar à vida”, explica. Ela o fez através da escrita e do desejo de conscientizar os outros sobre os chamados acidentes de trânsito, especialmente os jovens e o resto da sociedade para que dirijam de forma responsável.

A sociedade está mais sensibilizada ao tema do luto, embora há alguns anos a família estivesse mais capacitada para lidar com essa difícil situação: “Com sua dispersão, o indivíduo se encontra mais sozinho”, observa Alejandro Rocamora. Por isso, às vezes é necessário recorrer aos grupos de ajuda mútua, com a participação de profissionais da saúde, que são um recurso comunitário que complementa outros tipos de tratamento. “Mas sem forçar ninguém a frequentar”, diz Fernando Boatas, psiquiatra e diretor do Centro de Saúde Mental Comunitário de Martorell (Barcelona). Em sua opinião, também se deve evitar o abuso de medicamentos, “porque pode levar a pessoa entristecida a cair em uma armadilha: anestesiar os sentimentos que formam parte das reações humanas e precisam ser sentidos”. Tampouco se deve cair na tentação de tomar ansiolíticos ou antidepressivos. “A medicação deve ser um recurso a utilizar somente em casos muito extremos”, recomenda o psiquiatra de Martorell. Com as crianças, o melhor é utilizar uma linguagem clara e apropriada para sua idade e lhe explicar que o papai, a mamãe ou a vovó não voltarão mais. Não vale o “foi fazer uma viagem muito longa”.

Transformar a morte em um tabu é contraproducente; é melhor explicá-la como algo natural, “porque as crianças a viverão de uma forma mais tranquila”. Até os sete ou oito anos, a criança não tem o sentido da morte como processo irreversível. Entre os adolescentes pode ser muito traumático, porque é uma idade na qual se veem imersos em processos de crise.

Flor se encontra agora “tranquila e serena. A perda é única, a pena é imensa, a lembrança é constante, mas não há amargura”. Entende que sua situação, sem mais filhos nem netos, lhes permite se isolarem nessas datas, mas pede aos pais que os têm, que façam um esforço para continuar uma normalidade. “Não podem privar seus outros filhos ou netos de certas festas que o são para o resto”. Essa mãe se permite um grito final: “Que proíbam o anúncio de ‘volte para casa, volte para o Natal! ’ Todos nós temos alguém que não voltará para o Natal”.