Textos - Autossabotagem


AUTOSSABOTAGEM
por Frederico Mattos


A autossabotagem não é uma bruxa má que habita seu inconsciente e tenta destruir suas melhores realizações. Ela é uma tentativa da sua mente de manter o status quo e garantir que nenhuma grande mudança ocorra e abale a manutenção do equilíbrio aparente da sua vida.

Ainda que o resultado final seja uma estranha sensação de que está tudo errado, o objetivo da autossabotagem é garantir seu bem-estar.

A base da autossabotagem é uma mentalidade primitiva e infantil que nos habita e ainda anseia por viver sem grandes responsabilidades ou obrigações. É aquela parte da mente que quer comer enlouquecidamente, não tomar banho, viver brincando com os amiguinhos e se sentindo o super-homem, sem esforço ou interrupções.

Sabe aquele cara que se acha um baita jogador de futebol, mas que nunca levou o esporte a sério por sempre estar com o pé machucado? Pois é, colocar a mão na massa efetivamente seria uma forma muito dolorosa de perceber que talvez fosse um jogador mediano. Mas como sua desculpa sempre foi o pé ruim pode passar uma vida inteira aficcionado por futebol e afirmando para si mesmo que poderia estar lá entre os grandes dos gramados.

Ou seja, a autossabotagem é um mecanismo de proteção da sua identidade.

O mais importante é não confrontar a realidade e se manter no sonho potencialmente bom, ainda que nunca comprovado.

Os subterfúgios racionalizadores para não assumir seu receio de insuficiência são variados:

“Não é que fui mal na prova, mas escolhi um dia ruim, acabei dormindo mal na noite anterior”;

“Nunca deixei meu trabalho em segundo plano e sei que os homens são limitados mesmo, estou feliz por nenhum interesseiro ter se aproximado de mim e por isso fiquei solteira (mesmo querendo ter um relacionamento)”;

“Acabei não passando na entrevista de emprego porque me atrasei, o trânsito dessa cidade é terrível”;

“Ela que está perdendo por ter me deixado”;

“O que tem que ser será, o que eu poderia ter feito para passar no concurso?”;

“As pessoas que são idiotas, eu não preciso da aprovação de ninguém!”

Todas essas pessoas já tinham uma desculpa socialmente aceita para se justificar. Caso tivessem sucesso comemorariam, mesmo sabendo que não deram tudo de si. E diante de um eventual fracasso, podem atenuar sua culpa.

Atualmente, eu tenho um prazo para entregar um livro para uma editora e sei que há um sabotador que me faz entrar de cabeça em qualquer coisa, menos na entrega do texto, por isso tenho me antecipado ao trabalho sujo dele.

Pensando nisso, elenquei algumas das principais estratégias de autossabotagem que usamos e falo um pouco sobre como enganar esse sabotador interno.

O zapeador mental

Já reparou que na hora de estudar para a prova todas as coisas mais legais do mundo estão acontecendo?

Seu amigo chama para uma festa, o episódio da sua série favorita começa, uma garota puxa um papo no Facebook e salta no seu feed de notícias um vídeo engraçado que leva a outro.

Nada disso facilitará um bom desempenho que, no longo prazo, promoverá sua inserção no mercado de trabalho. Sua mente não vê seus objetivos dessa forma.

Sabendo que sua cabeça tentará mudar de canal psicológico e desviar do foco, engane sua percepção, distraia sua distração. Finja que aperta o botão do random e sempre pare no mesmo canal.

Eu faço da seguinte maneira: a tela em branco está diante de mim, ligo o método Pomodoro para fingir que estou levando a sério o texto. Sei que terei 25 minutos de escrita e 5 descanso, mas sei que vou me distrair em 10 minutos no máximo.

O que eu faço? Em nove minutos eu me forço a sair do texto e zapear sem propósito, mas fica chato, o legal seria zapear na surdina enquanto estou me levando à sério. Logo, volto ao texto e faço mais dez minutos e assim eu engano o método Pomodoro, mas também engano o meu lado espertinho que quer dar uma de malandro e subversivo. Resultado? Tarefa concluída.

Detalhe: escrevi esse texto fazendo isso.

O gorila guloso

Exatamente por se comprometer a fazer uma dieta, malhar ou meditar, sua megalomania não se submeterá aos olhares constrangedores dos bombados que puxam ferro de 50 kg com facilidade.

No Fantástico Mundo de Bobby que criamos, o emagrecimento e a saúde vem com o poder da mente, bastando desejar.

Esse gorila guloso que sabota qualquer meta pensa de forma binária: é tudo ou nada. Se não emagreceu numa manhã com 20 abdominais e supino, nada feito, vergonha pura, desista!

Já que o gorila guloso não aceita nenhuma derrota e quer sair ganhando de cara, é interessante premiá-lo com pequenas recompensas. Nada que o impressione demais, o objetivo é enganar seu sistema mental de recompensas imediatas de curto prazo.

Se você fez uma parte da tarefa, vá beber água ou assista um pouco de TV. Nada demorado, só um estímulo breve para manipular seu sistema preguiçoso que quer ficar fazendo nada. Quando chegar da academia, premie-se com um pequeno chocolate.

Se realmente fracassou irremediavelmente nas suas tarefas, invente outra micro-meta e recomece no dia seguinte, com todo o cinismo do mundo, como se nada tivesse acontecido.

Síndrome de Startup

Somos ótimos para começar projetos incríveis, afinal, existe uma máquina de ideias geniais e rentáveis em cada espaço no nosso cérebro. Essa fixação por grandes iniciativas se torna uma grande dificuldade em concluir tarefas, principalmente aquelas de execução a longo prazo.

O problema dessas iniciativas incríveis é que no final nunca haverá uma plataforma razoável para dar o próximo grande passo. O sujeito tem mil projetos, textos, ideias iniciadas, mas nenhuma em andamento.

Esse Mark Zuckerberg interno precisa de foco e resiliência para agarrar uma tarefa no chifre e executá-la até o fim. Quando surge uma dificuldade ou ninguém aplaude sua grande ideia, a ânsia por novidade se apodera de você. O que fazer? Por hábito, você começaria um projeto novo só para não perder o pique e achar que é muito esperto e importante.

Engane sua mente, finja que o novo projeto é o mesmo remodelado e coloque mais uma peça na engrenagem. Ainda que dê um novo formato a ele, será só parte da sequência da tarefa anterior.

O anti-Hércules

Se a tarefa parece gigantesca e o gorila guloso só aceita mega-projetos, sua mente achará que pequenas tarefas não são dignas de você. O anti-Hércules não aceitará nada menos que o Olimpo ou uma grande realização.

Nessa hora você precisa dar voz ao Hércules (meio homem e meio deus) e se engajar em tarefas “humilhantemente” menores. Sim, divida tudo em pequenas frações e as trate como se fossem independentes.

No meu caso, criei o sumário do futuro livro em capítulos e passei a me dedicar a eles em etapas. Toda vez que eu pensava no livro inteiro, sentia um cansaço antecipado enorme, afinal, meu anti-Hércules queria que eu fosse um escritor compulsivo que conclui sua grande obra numa tacada só.

De grão em grão a galinha enche o papo. O ditado é velho, mas é realista, afinal a realidade não é como a história de “João e o pé de feijão” e se esperar que um ato mágico conclua suas tarefas, nada será realizado.

Por mais chato que pareça, ninguém pode viver a vida no seu lugar.

O lobo solitário

Estar sozinho é uma das maneiras prediletas de se enganar e fraquejar. Infelizmente, somos movidos por prazos externos, “chicotadas” do chefe e culpas por mau desempenho. Sabendo disso, preferimos fazer as coisas sem avisar ninguém, pois caso tudo dê errado ninguém vai pentelhar ou cobrar.

Seja o “amigo da garotada”, espalhe sua tarefa por aí e deixe que as pessoas se metam na sua vida. Sim, sua mãe vai te aborrecer, seus amigos vão importunar, você terá ódio de ter autorizado essa invasão coletiva, mas essa é a melhor maneira de colocar sua mente para operar em rede.

Certa vez um amigo me pediu para avisar publicamente toda vez que ele tentasse agir como um espertinho arrogante. Por incrível que pareça, funcionou. Seu medo de ser exposto em público era maior do que a vontade de parecer um sabichão.

Ao contar para os demais sobre suas metas, você sentirá vergonha do seu fracasso e, se sua mente operar com isso, já está valendo.

O rebelde sem causa

O sabotador interno é aquela porção rebelde da mente que tenta sair da asa dos pais, mas quer continuar vivendo de mesada. O famoso rebelde sem causa.

Toda vez que uma obrigação é colocada na sua frente, o menino birrento vai dar as costas, e fazer cara de durão capaz de fazer as coisas por si.

A procrastinação de quem se acha espertinho pode atrasar sua tarefa simplesmente por achar que é inaceitável executar uma demanda vinda de outra pessoa.

Deixe o rebelde sem causa procrastinar por uma ou duas horas, massageie o ego dele, diga que ele é capaz de fazer melhor do que qualquer um e vá lentamente se enganando até que aquela ideia pareça sua.

Como ele é um cara malandro, deixe que execute a tarefa associando a algo bem legal, seja comendo algo saboroso, ouvindo uma música incrível ou trabalhando num café qualquer.

O mais importante é você fazer o sabotador rebelde não acreditar que aquilo é responsabilidade e trabalho.

Já que operamos por mecanismos bem pobres e primitivos, é fundamental não imaginar que teremos um resultado de alta performance.

Os caras que são muito produtivos vão achar essas estratégias tolas. Afinal, não precisam administrar o sabotador nesse nível básico.

Por isso, os livros de autoajuda costumam não funcionar: eles partem do pressuposto que o leitor, que muitas vezes precisa de soluções bastante primárias, está em condições de mudar seus condicionamentos de maneira brusca.

A pessoa que precisa gerenciar sua produtividade está emocionalmente chafurdando na lama.

Essa é a hora de usar o pior que ela tem a seu favor. Portanto, espero ter ajudado você a colocar sua preguiça, orgulho e vaidade para movimentar algo em sua vida.

Fonte:  http://papodehomem.com.br/como-sabotar-a-autossabotagem/