Textos - A Vingança


A VINGANÇA
por Benedict Carey


Quando Por que a vingança é tão doce?

Uma sobrancelha levantada foi o suficiente. Ela esperou um ano depois da separação, até ele pedir outra mulher em casamento - uma modelo, ele mencionou isso? - e o novo casal começar a planejar o casamento. Foi então que ela encontrou um amigo em comum que havia passado alguns dias com seu ex.

“E você se sentiu bem em ficar lá?", ela perguntou ao amigo.

“Sobre o que você está falando?", ele respondeu.

E então a sobrancelha arqueou, e pronto, as suspeitas sobre a orientação sexual de seu ex-namorado se espalharam. "Sim, eu sou de escorpião, muito vingativa", afirmou a mulher, que jurou vingança se seu nome fosse publicado neste jornal.

Vingativa, talvez, mas também fundamentalmente protetora. A vingança pode ser desaprovada, vista como algo moralmente pobre, coberta por superficialidades sobre o ato de viver bem. Mas a necessidade de se vingar, dizem pesquisadores, se baseia nos genes.

Atos de vingança pessoal refletem um senso biológico de justiça, dizem, que funciona no cérebro como o apetite. Alternadamente voraz e administrável, a vingança pode inspirar atos socialmente benéficos de retaliação e punição, bem como atos negativos.

A descrição emergente ajuda a explicar por que muitas pessoas que se veem acima da vingança se pegam fazendo coisas terríveis e desprezíveis, e como os preconceitos inconscientes pervertem o que, no fundo, é um instinto socialmente funcional.

“A melhor forma de entender a vingança não é como alguma doença, falha moral ou crime, mas como um comportamento profundamente humano e algumas vezes muito funcional", afirmou Michael McCullough, um psicólogo da Universidade de Miami. "A vingança pode ser um bom impedimento para o comportamento ruim, e traz sentimentos de totalidade e preenchimento".

Atos de retaliação, argumentam antropólogos, ajudam a manter as pessoas nos eixos quando não há leis formais ou imposições. Antes de Clint Eastwood e Arnold Schwarzenegger, houve Alexander Hamilton, cujo duelo fatal com Aaron Burr foi comemorado este mês nas margens do Rio Hudson.

Pesquisas recentes mostraram que comunidades estáveis dependem de pessoas que têm "um gosto intrínseco por punir outros que violam as normas da comunidade", disse Joseph Henrich, um antropólogo da Universidade de Emory, em Atlanta.

Em um jogo experimental envolvendo quatro participantes, por exemplo, as pessoas pagam para punir outros que contribuem com quantias baixas para o investimento conjunto. Em outro, em um exercício particular para dividir uma quantia de dinheiro, as pessoas normalmente rejeitam qualquer oferta de um parceiro que não seja dividida pela metade ou perto disso, negando aos dois jogadores uma compensação.

Os participantes tipicamente são estranhos que não se verão novamente, explicou Henrich, para que eles não penalizem outros para desenvolver uma relação benéfica no futuro. Eles fazem retaliações para garantir as regras que mantêm o jogo - e, teoricamente, a comunidade - em sintonia.

Usando tecnologias para medir a frequência do cérebro, o Dr. Eddie Harmon-Jones, um neurocientista da Universidade de Wisconsin, descobriu que quando as pessoas são insultadas, elas mostram uma explosão de atividade no córtex pré-frontal esquerdo, uma parte do cérebro que também é ativada quando as pessoas se preparam para satisfazer a fome e alguns desejos.

Essa atividade, afirmou Harmon-Jones, parece não refletir tanto a sensação de irritação quanto a preparação para expressá-la, a prontidão para responder. A expressão em si já é prazerosa. Em um recente experimento, psicólogos demonstraram que alunos que são ridicularizados tendem a se vingar menos do colega ofensivo se tomam uma "pílula falsa para congelar o humor", que bloquearia a experiência do prazer.

“Nós mostramos muitas vezes que expressar a raiva normalmente se agrava e leva a mais agressão", afirmou Brad Bushman, um psicólogo da Universidade de Michigan que conduziu o estudo, "mas as pessoas a expressam pela mesma razão que comem chocolate".

Mesmo assim, a natureza de desejos, dizem cientistas, é tender para o lado do excesso. Apesar de uma sopa e salada ser suficiente, as pessoas com fome sonham com um bufê completo. Da mesma forma, aqueles que se sentem injustiçadas normalmente exageram, engajados em fantasias extravagantes, quase sensuais, de vingança - destruir uma família, uma carreira, dançar sobre um túmulo.

“Pense no desejo de vingança como uma espécie de fome, uma luxúria, um déficit que o cérebro quer preencher", afirmou McCullough, "e você vai entender por que as fantasias de vingança podem ser tão deliciosas".

Quando as pessoas estão comprometidas em uma relação, sugerem estudos, elas normalmente se contentam com uma recompensa superficial para os pequenos abusos do dia-a-dia: Ele não está ajudando com a festa, deixe-o encontrar sua própria comida. Ela está desperdiçando dinheiro no celular, hora de escondê-lo.

As pessoas são totalmente sensíveis, se não sempre conscientes, dessa sutil troca e normalmente a administram sem crises. Mas comentários infelizes ou outras ofensas que contestam as crenças das pessoas sobre si mesmas - sua discrição, generosidade, dureza, inteligência - podem incitar um desejo de vingança mais profundo.

“Estamos falando de pequenos eventos do cotidiano que podem parecer insignificantes até tocarem algum antigo conflito, alguma antiga traição ou envergonhar a pessoa", explicou Irwin Rosen, um psicanalista de Topeka, Kansas, que estuda o papel da vingança na patologia.

Desprezadas ou envergonhadas por uma vulnerabilidade pessoal, algumas pessoas exigem vingança contra si mesmas, afirmou Rosen. O que parece um comportamento autocrítico ou até masoquista é abastecido por um profundo desejo de machucar alguém próximo.

Um de seus ex-pacientes, uma médica de 32 anos, estava acabando com a sua carreira de tanto beber e havia deixado um rastro de ex-maridos, parcialmente, para se vingar de um pai brilhante que insistia pela devoção de seus filhos. A maioria dos atos de vingança acontece em segredo, dizem pesquisadores, viajando em sussurros e ligações, em olhares e rumores. Poucas pessoas querem parecer vingativas.

“O ideal", disse Robert Baron, um psicólogo na Escola de Administração do Instituto Politécnico de Rensselaer em Troy, Nova York, que estudou represálias em locais de trabalho, "é destruir a vida da outra pessoa sem ela saber sobre o que aconteceu, sem ela perceber nada".