Textos - A linguagem dos sentimentos


A LINGUAGEM DOS SENTIMENTOS
por David Viscott


“Sentimentos” são expressões de um complexo de atividades psíquicas que chamamos "afetivas". O afeto é o estado emocional que inclui uma diversidade de sentimentos humanos, que se manifestam de maneiras diferentes. Destacam-se o amor e o ódio, como os principais afetos presentes na relação do ser humano com a vida. E, a partir desses dois pólos distintos, vários sentimentos se desdobram.

Temos que pensar que todo comportamento, atitude ou reação estão direta ou indiretamente associados a um afeto, pois é este que dá sentido ao comportamento. Uma atitude sem afeto é crueldade ou vazio e uma atitude com afeto é cura, vida. Por exemplo, se um pai, ao impor limites a alguns ímpetos de seu filho, o fizer com firmeza e amorosidade, a mensagem realizar-se-á; porém, se houver a firmeza, mas faltar o amor, restará apenas um ato autoritário.

Os sentimentos são a maneira como nos percebemos e são nossa reação ao mundo à nossa volta. Os sentimentos revelam o que experimentamos e expressam se o que estamos experimentando é agradável ou doloroso. E por isso, diante de sentimentos mais difíceis ou penosos que nos perturbam, tendemos a criar defesas para aliviar a angústia ou mesmo para nos desviarmos desse enfrentamento.

As defesas são necessárias e muitas vezes inevitáveis, mas o problema é que, quando são rígidas, afastam o sofrimento, a dor e, também, a alegria e o prazer. Além disso, existe aqui um fator econômico a ser considerado: a energia que despendemos para a construção e a manutenção de defesas é a mesma que poderíamos investir a favor de uma atitude mais positiva.

Nossos sentimentos revelam muito do que somos, a nossa história pessoal, nossas influências passadas e como desenvolvemos nossas relações com o mundo. Cada um de nós possui uma constituição própria, individual que, em interação com o meio, vai dando forma a um jeito de olhar e de sentir as coisas e experiências da vida. De forma bem simplista, é por conta dessas coisas que dizemos que fulano é otimista, porque vê a vida sempre pelo lado positivo e sicrano, ao contrário, é pessimista, pois vê problemas em tudo. Ser otimista ou pessimista depende em parte dessa nossa constituição pessoal, e em parte das experiências que tivemos, mais ou menos dolorosas, mais ou menos positivas.

Quando nascemos, somos muito frágeis, indefesos e extremamente dependentes. Além dos cuidados que estão a serviço das necessidades físicas, precisamos, também e principalmente, de um nível de relação em que o cuidador seja capaz de identificar, reconhecer e proporcionar, de forma amorosa, a segurança suficiente para ajudar-nos a superar esse momento sentido como cheio de perigos e ameaças. Precisamos também de alguém que nos ajude a sonhar a vida, no sentido de torná-la mais interessante e criativa. É com esses cuidados que a confiança vai sendo construída. Trata-se de uma confiança não apenas em relação ao outro, mas algo que se refere a possuirmos, dentro de nós, a experiência da bondade, da força interior, da esperança de se sentir capaz de superar as dificuldades da vida, assim como de reconhecer seus bons momentos.

Em geral, quem possui um estado psíquico assim constituído sente-se mais encorajado a entrar em contato com seus sentimentos, de uma forma mais natural e honesta. É através do conhecimento de nossos sentimentos que temos mais oportunidades de elaborar nossos conflitos, de fazer nossos lutos, de curar nossas feridas e de evoluirmos das defesas para a aceitação.

Não há caminho mais enriquecedor para o conhecimento das emoções que a disposição a vivenciá-las. É amando, e mesmo odiando, sentindo e reconhecendo esses afetos, em nossas relações diversas, que iremos apurando nossas condições para uma vida melhor.